Os últimos tempos têm sido férteis em revelações de factos que contrariam as perspectivas optimistas do governo de Sócrates.
Em primeiro lugar a revelação do parecer do Tribunal de Contas (que não é mais do que o órgão supremo de fiscalização da legalidade das contas do Estado que lhe estão submetidas) de que o Governo teria cometido ilegalidades na apresentação sobre a Conta Geral do Estado referente ao ano de 2005. Parece que afinal o número mágico do défice de 6%, que tudo tem justificado para impingir todo o tipo de sacrifícios aos portugueses, não corresponde à realidade. Nem sequer vou recordar as habituais declarações que se fazem sobre as pesadas heranças que se recebem de governos anteriores de cor diferente da que tiver alcançado o governo. Estamos todos fartos dessas parangonas e desse falsíssimo e sensaborão discurso que se aprende em qualquer cartilha partidária. O que importa realmente é que as acusações explanadas neste parecer só poderiam ter qualquer efeito se o Ministério Público formalizasse a acusação, como lhe compete, e apurasse efectivamente quem está a dizer a verdade, o Dr. Oliveira Martins, ou o ministro das finanças. Uma boa oportunidade nas mãos do Dr. Pinto Monteiro para contrariar a imagem de que mil ilegalidades cometidas em Portugal se transformam em legalidade. A prática reiterada de actos contrários à lei que se convertem, com a complacência geral, em actos legais são imensos em Portugal, mas, fazer os portugueses crer que as contas apresentadas pelo estado são uma fraude, é por demais violento aceitar. Ainda mais quando é o próprio ministro competente pela pasta a anunciar que logo “a priori” existem dois tipos de Contas: a interna e a europeia. Famosos economistas da praça apressaram-se imediatamente a dizer com desdém que isto é comum, coisa de somenos importância. A comunicação social incrivelmente resigna-se e não deu a importância devida ao assunto, que mais não é, do que o retrato fiel da variabilidade da verdade à portuguesa.
Em segundo lugar e bem mais preocupante, o aumento de emigração em Portugal. Cerca de noventa mil portugueses emigraram no ano transacto. A descrença no país e num futuro próspero vão assim ditando o abandono da pátria. A desistência e a obrigatoriedade assim o impõem. Os fantasmas do estado novo afinal nem sequer tiveram tempo de ser exorcizados. Pairam como espectros em torno de cada um de nós lembrando-nos constantemente que afinal nada mudou assim tanto. Apenas o direito inalienável e fundamental da liberdade de expressão. O fenómeno não é mais do que a expressão paradigmática da desmotivação generalizada que se sente e que se vive.
Portugal continua à deriva, sem rumo…