Hoje é dia de falar sobre algo que me diz muito em termos pessoais. A Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa e as suas recentes eleições.
Desde há muito tempo que não assistíamos a um acto eleitoral tão interessante sobre todos os pontos de vista. De um lado João Stoffel, o vitorioso, do outro André Couto, o derrotado. Permitam-me que me cinja a uma análise mais centrada na direcção, pedindo desde já as minhas imensas desculpas aos outros protagonistas, mas efectivamente são estas duas personalidades que mais interesse me suscitam de momento e suscitaram durante todo percurso pré eleitoral e eleitoral.
É necessário voltar algum tempo atrás, como convém, para perceber o porquê das candidaturas e todo o seu percurso pessoal. Além disso analisar e tentar perceber alguns fenómenos como o fim da lista R e todas as convulsões que daí advieram.
O André Couto foi-me apresentado, politicamente falando, pelo meu amigo Bruno Cabral. Na altura tinha vindo do espaço político da lista É que ao fim de seis anos de poder havíamos derrotado. Cabral apostara nele para vogal no desporto já que era alguém que considerava dotado de especiais capacidades de trabalho, sacrifício e sendo portanto capaz de dar um novo rumo a um sector que estava algo estático. Foi indubitavelmente no seu mandato que Couto alcançaria protagonismo. Era seu vice-presidente o Ângelo. De facto, pelas informações que fui obtendo sempre foi capaz de atingir as metas a que se tinham proposto, apesar de, e afirmei-o variadíssimas vezes, não terem sido capazes de inovar e principalmente acabar com esse monstro disparatado que é e continua a ser a viagem à Bélgica. De facto, no meu mandato não terminámos com essa deslocação por entendermos que os compromissos que entretanto tinham sido assumidos pelas direcções anteriores eram para ser escrupulosamente cumpridos. O dinheiro que se investe nessa organização é um desperdício puro e simples de recursos face ao número de alunos que usufruem do evento. Pode na minha perspectiva organizar-se melhor e mais barato, envolvendo mais alunos e simultaneamente incrementar a prática desportiva. Espero que a nova direcção da AAFDL me ouça finalmente.
No ano seguinte já na direcção presidida por Pedro Ângelo, André Couto viria a assumir a vice-presidência para as actividades académicas que englobava as áreas de desporto, cultural e recreativo. Curiosamente, ou não, André Couto viria a assumir a tutela das mesmas áreas das quais tinham surgido todos os presidentes anteriores. A saber, ainda no papel de oposição, tinha eu sido escolhido por Pedro Delgado Alves e pares, candidato a vice-presidente para assumir essas funções, apesar de infelizmente derrotados. No ano seguinte seria Bruno Cabral que assumiria essas funções já enquanto direcção. Depois Pedro Ângelo e finalmente André Couto. Criou-se de certa forma o mito de que quem fosse responsável por essas áreas seria o candidato próximo. Com um certo fundamento pela notoriedade pública que essas áreas ofereciam, mas, a meu ver, não mais do que próximo da mera coincidência. Couto, pessoa extremamente ambiciosa preferiu não arriscar e pelo espaço político conquistado conseguiria arrecadar a mais ambiciosa pasta. Já no exercício das suas funções continuou a ser quem habilmente e frequentemente levava a água a seu moinho. Uma irresistível tentação pelos Países Baixos era agora a sua nova conquista. Mais uma deslocação dispendiosa para os cofres da AAFDL e sem o devido retorno para a generalidade dos alunos. Quando soube, imediatamente opus-me, porém era tarde demais. Couto continuava a conquistar pontos e era já visto como um putativo candidato que sucederia a Pedro Ângelo. Com o decorrer do ano surgiam os primeiros problemas de conflito com os outros vice-presidentes André Pardal e Álvaro Regueira. Era por demasiado evidente para estes que Couto começava a dar sinais de se pôr permanentemente em bicos de pés para conseguir alcançar a tão desejada presidência, mesmo pelo cada vez mais permanente desafio ao presidente da direcção. A estratégia era simples, conquistar credibilidade e o seu consequente espaço político podendo então desafiar tudo e todos. O seu ego começara a dar sinais de ser enorme, daí tendo resultado a sua próxima manobra. Conquistar a lista R. Tarefa que não se avizinhava fácil, dado ter vindo do espectro político da lista É que nós tínhamos combatido ferozmente. Couto mais uma vez soubera rodear-se de pessoas credíveis e que só por questões de feitio ou maneira de estar poderiam ser eventualmente alvo de ataques. Uma dessas pessoas que acabou por cair no “conto do vigário” foi Inês Ramalho, que tinha contas a acertar com o meu amigo David Areias. Areias que entretanto tinha sido eleito membro do conselho directivo da FDL, cargo que tinha sido manifestamente alvo de cobiça pela Inês, mas do qual viria a ser afastada por terem decidido que a sua candidatura poderia ameaçar a independência necessária para o desempenho do cargo derivado à relação de parentesco com a Professora Doutora Maria Inês Ramalho. Ora, sabia Couto, com a experiência de juventude partidária que não sei exactamente qual, que esta poderia ser manipulada com relativa facilidade. E assim sucedeu! Para surpresa de todos, menos do próprio, no momento da eleição dos órgãos internos da lista R, eis que Couto se apresentava, para espanto geral, com a maioria dos votos podendo assim manipular a seu bel-prazer aquela assembleia, elegendo as suas pessoas de confiança. Inês foi inocente e ouviu quem não devia… apenas isso. Não duvidei nunca da sua integridade.
O caos instalara-se! O Areias fora derrotado pela Inês estando assim finalmente consumada a vingança eleitoral e Couto sorria observando as reacções desorientadas por parte dos seus colegas de direcção que o acusavam de traidor. Se politicamente Couto deu uma lição aos menos experientes do que ele de que forma se conquista uma eleição, do ponto de vista ético e do princípio de solidariedade que devia ao seu presidente era evidente que o seu comportamento era reprovável a toda a prova. Porém este maquiavelismo de trazer pelas associações não tinha ainda esgotado as suas manifestações. Estando a confusão instalada e sabendo-se já de rumores que indicavam a demissão de alguns membros da direcção, o seu percurso continuava. A estratégia era agora de forma acentuada pôr em causa a capacidade de liderança do Pedro Ângelo perante os alunos, bem como de todos os que o rodeavam. Era a política dos candidatos queimados. Pedro, Álvaro, Pardal estavam arrumados, pensava e seria apenas uma questão de tempo até o povo declarar em uníssono a aclamação de Couto à presidência. Porém, mais uma vez o seu enorme ego viria a atraiçoá-lo. A sua imagem dentro do seio da direcção estava praticamente destruída tendo perdido a confiança de todos. Ângelo batera com o punho na mesa e conseguira demover Couto de participar nas reuniões de direcção, mantendo assim as condições essenciais para o normal funcionamento da AAFDL. Couto estava agora do lado de fora. A vitimização era agora o seu grande trunfo. Chorar o mais possível pelos cantos dos bares até conseguir reunir o seu pequeno exército capaz de o levar à vitória. Defendi na altura que os responsáveis de então tinham a obrigação de reconquistar a lista, não deixando cair os braços. Na altura pensava que a estratégia de Couto era inteligentemente conquistar a lista R para se apresentar a eleições por esta, mas tal não se veio a verificar e ainda bem! Estou convencido de que quem fosse candidato pela R seria vencedor. Seria a primeira vez que uma lista nova, logo no primeiro ano, conseguiria ganhar eleições a uma lista no poder. A imagem R ainda aguentava algumas eleições até encontrar o seu fim natural. Hoje fico feliz por não ter havido manchas graves da R no poder e sempre que as houve foram retiradas com forte lixívia que não deixou marcas.
Mas assim não o fez. Entretanto já tinha esquecido muitos dos que estiveram com ele nas eleições da lista R. Já não serviam os seus intentos. A R estava ultrapassada em termos de imagem e seria portanto necessário renovar. Renovação com S, talvez de Super. Desde muito cedo que a campanha para ele tinha começado. Destruir a lista R já estava em princípio feito. Portanto, tudo se aprontava para receber no Olimpo este semi-deus que tudo engendrara, previra acima da capacidade de um vulgar ser humano.
Enquanto a moribunda lista R se degladiava já também a pensar quem seria o seu candidato, eis que surge alguém novo, um relativo out sider nestas andanças. João Stoffel apareceu com serenidade necessária para que naquele momento as pessoas vissem nele alguém capaz de mobilizar e trazer para ele pelo menos alguns dos melhores, se não todos! Stoffel tinha provas dadas no associativismo através do seu excelente desempenho na Elsa, bem como nos órgãos da FDL. Alguém que, além das suas excelentes festas caseiras em que evidenciava os seus dotes musicais através dos seus bons desempenhos no piano de cauda, que superavam a qualidade vocal, diga-se em abono da verdade, revelava sempre um lado humano extraordinário. Pessoa culta, educada, estudiosa, que não recusava um bom desafio e sempre que o fazia era com o empenho próprio dos vencedores! Fazia acreditar, pelo seu discurso, pela sua postura afável e apenas os mais distraídos não conseguiam ver que poderíamos estar perante um líder. Tinha ainda uma impolutíssima margem de credibilidade por ter estado afastado do desempenho de cargos na AAFDL e portanto não fora obrigado a “sujar” as mãos neste período tão conturbado, como muito tinham sido obrigados a fazer. André Pardal acabaria por ser o principal prejudicado nessa guerra, bem como Álvaro, apesar deste nunca para mim ter sido verdadeiro candidato. Stoffel criara um pequeno grupo aglutinador constituído por pessoas de inegável capacidade, estou a referir-me essencialmente a Manuel Carvalho, Bruno Pereira, Tiago Valente de Oliveira e Gonçalo Pereira. Foram estes essencialmente que acreditaram incondicionalmente na sua liderança desde início.
Assim foi serenamente construindo o seu espaço. Pouco a pouco sentindo imensas dificuldades começara a ganhar a confiança de quem o rodeava. Sempre de forma séria, nunca se vergando aos interesses meramente eleitoralistas, apesar de ter a consciência clara de que apenas sendo eleito poderia pôr em prática o seu programa. São estas qualidades que gostaria de realçar em Stoffel e no novo presidente da direcção da AAFDL: inteligência e seriedade. Os teus meios justificaram os fins. É com apreço que vejo este grande sinal de maturidade do eleitorado da FDL que soube afinal de tudo premiar os que mereciam.
Sei que a AAFDL ficou muito bem servida. O tempo di-lo-á, eu apenas atrevo-me a prever…
Um grande abraço a todos os eleitos. Façam um grande trabalho dignificando a nossa academia lembrando-se sempre que estão aí para servir!
P.S. um abraço a todos os amigos que aí deixei e não me refiro apenas a alunos. Talvez um dia escreva mais histórias interessantes…