Tuesday, February 13, 2007

Aborto final

Apesar de tardia a minha opinião, não poderia deixar de comentar os resultados sobre o referendo e suas consequências.

Em primeiro lugar, manifestar o meu agrado pelo resultado obtido, permitindo a Portugal, ainda que uns bons anos atrasados, virar esta página sobre o obscurantismo que persiste ainda em atormentar-nos. A pesada herança de um estado, que de novo afinal nada tinha, ainda hoje se vai revelando de forma bastante expressiva. Foi indubitavelmente a vitória da laicização do estado.

Em segundo lugar, fazendo uma leitura atenta dos resultados por concelho, constatamos facilmente que a maior expressão dos votos no Não se verificou onde a igreja ainda hoje mantém a sua influência. Especialmente em meios rurais mais virados a norte foi expressiva essa vitória. Atente-se por exemplo aos resultados obtidos em Arcos de Valdevez em que mais de 70% dos cidadãos não se pronunciaram e os que se pronunciaram votaram contra a alteração da lei vigente. De referir que o Sim obteve vitórias nas freguesias mais urbanizadas. Não podemos também ignorar o quase total alheamento dos meios de comunicação social locais em relação ao assunto. De facto é para mim incompreensível e lamentável que um assunto tão delicado e de relevantíssima importância não tenha despertado o interesse dos media locais. Por iniciativa da plataforma do Movimento de Intervenção e Cidadania realizou-se em Arcos de Valdevez um debate com três representantes de cada um dos movimentos opostos. Público muito escasso, o que já se contava. Sinais de interesse por parte da comunicação social (se assim lhes pudermos chamar)? Rigorosamente algum! Com excepção de um director de um jornal local, que estava presente enquanto cidadão e não como jornalista (se assim lhes pudermos chamar) ninguém compareceu à chamada. Lamentável. De facto, com excepção do concelho de Caminha, em que o Sim obteve uma vitória importantíssima e onde tive a oportunidade de estar presente em época de campanha numa sessão de esclarecimento como orador (curiosamente teve direito a transmissão em directo através dos microfones da Rádio Afifense, que aqui se congratula), todo o distrito de Viana do Castelo espelhou bem a sua realidade actual, tema que levará a novas reflexões em artigo próprio. Os níveis de abstenção altíssimos demonstram que as populações locais não gostam de se incomodar e de participar em questões de cidadania, o que me leva à conclusão final sobre o referendo.

O que fazer com o referendos? Já tinha dito anteriormente que a abstenção seria o principal inimigo do Sim. De facto a abstenção é o grande perigo actual de todas as democracias. A democracia vive do voto e sem este acto tudo se confina a um mero exercício de minorias que mais ou menos esclarecidas vão-se dando ao trabalho cada vez mais complexo de estarem atentos. Do ponto de vista estritamente jurídico o referendo não obteve os 50% de votos necessários para que fosse vinculativo, porém, quase unanimemente foi reconhecido a vinculatividade política que dá garantias ao legislador de pacificamente alterar esta lei sem convulsões sociais. Portanto o problema obrigatoriamente deve colocar-se a jusante, ou seja, apesar de existir a figura referendária será que no momento actual da vida política devemos correr o risco num futuro breve de sobre matérias tão complexas repetir a experiência? Penso que não. Está comprovado que o mais directo exercício de democracia não colheu os resultados esperados e produziu apenas o adiamento decisório de questões tão fulcrais como esta. Elegemos os nossos representantes e estes melhor do que ninguém deverão retirar as ilações devidas. Este referendo apenas existiu porque exactamente há nove anos atrás Guterres, entalado entre as pressões partidárias e as suas convicções pessoais, foi socorrido por Marcelo que se lembrou da figura do referendo como forma de descalçarem a bota da penitência cristã. Com uma agravante, Marcelo seria ao tempo o claro vencedor e Guterres cego não o quis ver. Hoje foram os dois derrotados!

Mais uma nota final sobre a inacreditável capacidade do Presidente não dar cavaco a ninguém sobre o que pensa. E a primeira-dama? Sendo que se descobriu recentemente a sua vocação de centro esquerda, de que forma teria votado? Suscitou a minha curiosidade confesso…

 

P.S. não resisto à tentação de perguntar aos meus caros leitores se por acaso já viram nas manhãs do Canal 1 da RTP a rubrica diária “Minuto Verde”? Aconselho vivamente! É uma paródia muito pedagógica onde aparece um senhor da Quercus, muito parecido com aquele cozinheiro louco dos Marretas, que nos dá fantásticos conselhos sobre o meio ambiente. Por exemplo, hoje brindou-nos com um passeio em sua casa nas suas felpudas pantufas, julgo eu de pele (será ecologicamente correcto?) onde nos explicava que andar com os sapatos que vinham da rua era prejudicial ao saudável meio ambiente da casa. Fantástico! Isto vai salvar os ursos polares de certeza absoluta! A não ser que o cheiro dos pés seja ainda mais prejudicial. Questão interessante… talvez amanhã nos brinde com mais uma pérola referente ao tema dos sapatos de fora e aos caseiros. Possivelmente talvez tenhamos aqui material para toda uma saga! “Ecologistas (escandalosamente protegidos pelo canal do estatal) à beira de um ataque de nervos por não terem nada para falar que não seja de chinelos…” é a minha proposta para o título do primeiro filme.

Falando a sério, o ambiente é um tema demasiado sério para ser tratado de forma tão absolutamente ridícula! Se não acreditam em mim vejam por favor e deliciem-se: http://multimedia.rtp.pt/videobeta/destaques_video_conteudo.php Cliquem em Minuto Verde.

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Tuesday, February 6, 2007

Parabéns AAFDL

 

Hoje é dia de falar sobre algo que me diz muito em termos pessoais. A Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa e as suas recentes eleições.

Desde há muito tempo que não assistíamos a um acto eleitoral tão interessante sobre todos os pontos de vista. De um lado João Stoffel, o vitorioso, do outro André Couto, o derrotado. Permitam-me que me cinja a uma análise mais centrada na direcção, pedindo desde já as minhas imensas desculpas aos outros protagonistas, mas efectivamente são estas duas personalidades que mais interesse me suscitam de momento e suscitaram durante todo percurso pré eleitoral e eleitoral.

É necessário voltar algum tempo atrás, como convém, para perceber o porquê das candidaturas e todo o seu percurso pessoal. Além disso analisar e tentar perceber alguns fenómenos como o fim da lista R e todas as convulsões que daí advieram.

O André Couto foi-me apresentado, politicamente falando, pelo meu amigo Bruno Cabral. Na altura tinha vindo do espaço político da lista É que ao fim de seis anos de poder havíamos derrotado. Cabral apostara nele para vogal no desporto já que era alguém que considerava dotado de especiais capacidades de trabalho, sacrifício e sendo portanto capaz de dar um novo rumo a um sector que estava algo estático. Foi indubitavelmente no seu mandato que Couto alcançaria protagonismo. Era seu vice-presidente o Ângelo. De facto, pelas informações que fui obtendo sempre foi capaz de atingir as metas a que se tinham proposto, apesar de, e afirmei-o variadíssimas vezes, não terem sido capazes de inovar e principalmente acabar com esse monstro disparatado que é e continua a ser a viagem à Bélgica. De facto, no meu mandato não terminámos com essa deslocação por entendermos que os compromissos que entretanto tinham sido assumidos pelas direcções anteriores eram para ser escrupulosamente cumpridos. O dinheiro que se investe nessa organização é um desperdício puro e simples de recursos face ao número de alunos que usufruem do evento. Pode na minha perspectiva organizar-se melhor e mais barato, envolvendo mais alunos e simultaneamente incrementar a prática desportiva. Espero que a nova direcção da AAFDL me ouça finalmente.

No ano seguinte já na direcção presidida por Pedro Ângelo, André Couto viria a assumir a vice-presidência para as actividades académicas que englobava as áreas de desporto, cultural e recreativo. Curiosamente, ou não, André Couto viria a assumir a tutela das mesmas áreas das quais tinham surgido todos os presidentes anteriores. A saber, ainda no papel de oposição, tinha eu sido escolhido por Pedro Delgado Alves e pares, candidato a vice-presidente para assumir essas funções, apesar de infelizmente derrotados. No ano seguinte seria Bruno Cabral que assumiria essas funções já enquanto direcção. Depois Pedro Ângelo e finalmente André Couto. Criou-se de certa forma o mito de que quem fosse responsável por essas áreas seria o candidato próximo. Com um certo fundamento pela notoriedade pública que essas áreas ofereciam, mas, a meu ver, não mais do que próximo da mera coincidência. Couto, pessoa extremamente ambiciosa preferiu não arriscar e pelo espaço político conquistado conseguiria arrecadar a mais ambiciosa pasta. Já no exercício das suas funções continuou a ser quem habilmente e frequentemente levava a água a seu moinho. Uma irresistível tentação pelos Países Baixos era agora a sua nova conquista. Mais uma deslocação dispendiosa para os cofres da AAFDL e sem o devido retorno para a generalidade dos alunos. Quando soube, imediatamente opus-me, porém era tarde demais. Couto continuava a conquistar pontos e era já visto como um putativo candidato que sucederia a Pedro Ângelo. Com o decorrer do ano surgiam os primeiros problemas de conflito com os outros vice-presidentes André Pardal e Álvaro Regueira. Era por demasiado evidente para estes que Couto começava a dar sinais de se pôr permanentemente em bicos de pés para conseguir alcançar a tão desejada presidência, mesmo pelo cada vez mais permanente desafio ao presidente da direcção. A estratégia era simples, conquistar credibilidade e o seu consequente espaço político podendo então desafiar tudo e todos. O seu ego começara a dar sinais de ser enorme, daí tendo resultado a sua próxima manobra. Conquistar a lista R. Tarefa que não se avizinhava fácil, dado ter vindo do espectro político da lista É que nós tínhamos combatido ferozmente. Couto mais uma vez soubera rodear-se de pessoas credíveis e que só por questões de feitio ou maneira de estar poderiam ser eventualmente alvo de ataques. Uma dessas pessoas que acabou por cair no “conto do vigário” foi Inês Ramalho, que tinha contas a acertar com o meu amigo David Areias. Areias que entretanto tinha sido eleito membro do conselho directivo da FDL, cargo que tinha sido manifestamente alvo de cobiça pela Inês, mas do qual viria a ser afastada por terem decidido que a sua candidatura poderia ameaçar a independência necessária para o desempenho do cargo derivado à relação de parentesco com a Professora Doutora Maria Inês Ramalho. Ora, sabia Couto, com a experiência de juventude partidária que não sei exactamente qual, que esta poderia ser manipulada com relativa facilidade. E assim sucedeu! Para surpresa de todos, menos do próprio, no momento da eleição dos órgãos internos da lista R, eis que Couto se apresentava, para espanto geral, com a maioria dos votos podendo assim manipular a seu bel-prazer aquela assembleia, elegendo as suas pessoas de confiança. Inês foi inocente e ouviu quem não devia… apenas isso. Não duvidei nunca da sua integridade.

O caos instalara-se! O Areias fora derrotado pela Inês estando assim finalmente consumada a vingança eleitoral e Couto sorria observando as reacções desorientadas por parte dos seus colegas de direcção que o acusavam de traidor. Se politicamente Couto deu uma lição aos menos experientes do que ele de que forma se conquista uma eleição, do ponto de vista ético e do princípio de solidariedade que devia ao seu presidente era evidente que o seu comportamento era reprovável a toda a prova. Porém este maquiavelismo de trazer pelas associações não tinha ainda esgotado as suas manifestações. Estando a confusão instalada e sabendo-se já de rumores que indicavam a demissão de alguns membros da direcção, o seu percurso continuava. A estratégia era agora de forma acentuada pôr em causa a capacidade de liderança do Pedro Ângelo perante os alunos, bem como de todos os que o rodeavam. Era a política dos candidatos queimados. Pedro, Álvaro, Pardal estavam arrumados, pensava e seria apenas uma questão de tempo até o povo declarar em uníssono a aclamação de Couto à presidência. Porém, mais uma vez o seu enorme ego viria a atraiçoá-lo. A sua imagem dentro do seio da direcção estava praticamente destruída tendo perdido a confiança de todos. Ângelo batera com o punho na mesa e conseguira demover Couto de participar nas reuniões de direcção, mantendo assim as condições essenciais para o normal funcionamento da AAFDL. Couto estava agora do lado de fora. A vitimização era agora o seu grande trunfo. Chorar o mais possível pelos cantos dos bares até conseguir reunir o seu pequeno exército capaz de o levar à vitória. Defendi na altura que os responsáveis de então tinham a obrigação de reconquistar a lista, não deixando cair os braços. Na altura pensava que a estratégia de Couto era inteligentemente conquistar a lista R para se apresentar a eleições por esta, mas tal não se veio a verificar e ainda bem! Estou convencido de que quem fosse candidato pela R seria vencedor. Seria a primeira vez que uma lista nova, logo no primeiro ano, conseguiria ganhar eleições a uma lista no poder. A imagem R ainda aguentava algumas eleições até encontrar o seu fim natural. Hoje fico feliz por não ter havido manchas graves da R no poder e sempre que as houve foram retiradas com forte lixívia que não deixou marcas.

Mas assim não o fez. Entretanto já tinha esquecido muitos dos que estiveram com ele nas eleições da lista R. Já não serviam os seus intentos. A R estava ultrapassada em termos de imagem e seria portanto necessário renovar. Renovação com S, talvez de Super. Desde muito cedo que a campanha para ele tinha começado. Destruir a lista R já estava em princípio feito. Portanto, tudo se aprontava para receber no Olimpo este semi-deus que tudo engendrara, previra acima da capacidade de um vulgar ser humano.

Enquanto a moribunda lista R se degladiava já também a pensar quem seria o seu candidato, eis que surge alguém novo, um relativo out sider nestas andanças. João Stoffel apareceu com serenidade necessária para que naquele momento as pessoas vissem nele alguém capaz de mobilizar e trazer para ele pelo menos alguns dos melhores, se não todos! Stoffel tinha provas dadas no associativismo através do seu excelente desempenho na Elsa, bem como nos órgãos da FDL. Alguém que, além das suas excelentes festas caseiras em que evidenciava os seus dotes musicais através dos seus bons desempenhos no piano de cauda, que superavam a qualidade vocal, diga-se em abono da verdade, revelava sempre um lado humano extraordinário. Pessoa culta, educada, estudiosa, que não recusava um bom desafio e sempre que o fazia era com o empenho próprio dos vencedores! Fazia acreditar, pelo seu discurso, pela sua postura afável e apenas os mais distraídos não conseguiam ver que poderíamos estar perante um líder. Tinha ainda uma impolutíssima margem de credibilidade por ter estado afastado do desempenho de cargos na AAFDL e portanto não fora obrigado a “sujar” as mãos neste período tão conturbado, como muito tinham sido obrigados a fazer. André Pardal acabaria por ser o principal prejudicado nessa guerra, bem como Álvaro, apesar deste nunca para mim ter sido verdadeiro candidato. Stoffel criara um pequeno grupo aglutinador constituído por pessoas de inegável capacidade, estou a referir-me essencialmente a Manuel Carvalho, Bruno Pereira, Tiago Valente de Oliveira e Gonçalo Pereira. Foram estes essencialmente que acreditaram incondicionalmente na sua liderança desde início.

Assim foi serenamente construindo o seu espaço. Pouco a pouco sentindo imensas dificuldades começara a ganhar a confiança de quem o rodeava. Sempre de forma séria, nunca se vergando aos interesses meramente eleitoralistas, apesar de ter a consciência clara de que apenas sendo eleito poderia pôr em prática o seu programa. São estas qualidades que gostaria de realçar em Stoffel e no novo presidente da direcção da AAFDL: inteligência e seriedade. Os teus meios justificaram os fins. É com apreço que vejo este grande sinal de maturidade do eleitorado da FDL que soube afinal de tudo premiar os que mereciam.

Sei que a AAFDL ficou muito bem servida. O tempo di-lo-á, eu apenas atrevo-me a prever…

Um grande abraço a todos os eleitos. Façam um grande trabalho dignificando a nossa academia lembrando-se sempre que estão aí para servir!

  

P.S. um abraço a todos os amigos que aí deixei e não me refiro apenas a alunos. Talvez um dia escreva mais histórias interessantes…

Posted by Germano Amorim at 18:27:00 | Permalink | Comments (12)

Monday, February 5, 2007

Aborto e o complexo do pecado original

Faltam poucos dias para o término da campanha. Conforme as minhas previsões a posição do Sim nas sondagens tem descido. No fim-de-semana que findou tive a oportunidade de participar em duas sessões públicas sobre o aborto esperando que tenha contribuido para contrariar essa tendência. Uma sessão de esclarecimento pelo Sim em Moledo e um debate público entre três defensores do Sim e outros tantos do Não que ocorreu em Arcos de Valdevez. O primeiro sem polémica decorreu com tranquilidade. O debate foi aceso, duro, porém civilizado. As únicas dúvidas que surgiam foram relativas a questões técnico-jurídicas que dentro das minhas possibilidades fui tratando de esclarecer. A confusão gerada entre a utilização dos termos despenalização, descriminalização e liberalização que tem sido feita nestes dias de campanha foi o tema mais aflorado. Não é à toa que a confusão se instalou. Os defensores do Não propositadamente baralham o eleitorado fazendo jogos de palavras de duvidosa honestidade intelectual. A etimologia dos termos dá-nos uma margem ampla para interpretação conforme as nossas conveniências, porém do ponto de vista científico é lamentável que assim suceda.

O que está em causa neste referendo é apenas a despenalização das mulheres que por necessidade extrema recorrem ao aborto. Apenas dessa forma podemos ter um aborto que se pretende “legal, seguro e raro”. Essa despenalização será possível até às 10 semanas, prazo bastante razoável e inferior aos restantes países da U.E. que estabeleceram um prazo de 12 semanas, com excepção da Polónia, Malta e Irlanda.

O que se pretende é combater a estigmatização criminal a que cerca de 18.000 portuguesas por ano, de acordo com os dados da APF, são ditadas.

O que se pretende é acabar com a discriminação que ocorre por motivos económico-sociais.

O que se pretende é zelar pela saúde pública e das mulheres em particular.

Outra das dúvidas prendia-se com o papel do homem no actual enquadramento legal. Poucos têm dito que o homem poderá ser acusado de cumplicidade pela prática do crime de aborto que é punido com prisão até três anos! Assim o é. Que se desenganem aqueles que tranquilamente esperam que isto se resolva sem se levantarem do sofá.

Porém o que me leva hoje a escrever é algo distinto do direito. É exactamente o que precede esse mesmo direito. A discussão da religiosidade, da laicidade e o conjunto axiológico que veste a nossa sociedade. Indubitavelmente, como bem escreveu Pacheco Pereira, estamos perante duas visões perfeitamente distintas de Estado. Por um lado, os que ainda não aceitam muito bem a distinção entre o poder temporal e o religioso, o olhar de religiosidade, e por outro, o olhar daqueles que defendem e concebem apenas o Estado de forma absolutamente laica! Não podemos esconder que estamos perante uma questão de índole religiosa que mais uma vez na sua história se imiscui num problema social gravíssimo que põe a saúde física e psicológica das mulheres em causa, chegando mesmo a impedi-las de poderem futuramente engravidar novamente.

Que estranho conceito de defesa da vida daqueles que ainda hoje não conseguem libertar-se do complexo do pecado original. A mulher sempre foi encarada como um castigo dos deuses ou de Deus. Atentemos à mitologia grega e ao castigo que Zeus infligiu a Prometeu, e aos homens, por este ter roubado o segredo do fogo. Além de outros, criou a mulher! Ora rico castigo! Pandora foi criada como um ser menor com o único objectivo de seduzir Epmeteu a abrir a misteriosa caixa tão bem guardada por dois zelosos corvos que esta porém convencera a retirar sob pretexto de medo das sinistras aves negras. E assim foi, após uma boa noite de sexo o incauto adormecera e essa pecadora conseguira finalmente abrir a caixa. O que continha a caixa? Todos os males do mundo.

Mais tarde esta alegoria mitológica haveria de ser redescoberta e reaplicada em termos teológicos ao cristianismo. Efectivamente também a desgraçada da Eva haveria de trair o pobre do Adão e estragar tudo por não resistir a tão suculenta e vermelhinha maçã! Fruto do desejo diabólico mais uma vez uma mulher a estragar as boas intenções da humanidade masculina. Essas mulheres são ainda as de hoje. No fundo ainda fracas de espírito. Simultaneamente símbolo de desejo e luxúria e também as primeiras a pecar. Pobres seres que não têm sossego. Incapazes de regularem os seu destinos por si. O estado tem que deitar uma mão amiga sobre as suas frágeis cabecinhas loucas.

Tal é tão verdade que só assim poderemos compreender que os defensores do Não venham agora informar os cidadãos que afinal querem despenalizar as coitadas das mulheres que são empurradas a abortar. Porém, querem manter tudo como está, talvez substituindo a pena de prisão por prestação de serviços comunitários, ou seja, substituir a chapada violenta da prisão pela mais leve mas não menos humilhante imposição do puxão de orelhas.

Vamos todos votar no dia 11 de Fevereiro e acabar com este lamentável estado de hipocrisia nacional!

 

 

Posted by Germano Amorim at 15:45:11 | Permalink | Comments (8)

Friday, February 2, 2007

Pelo Sim

  Caminha pelo SIM

Sessão de Esclarecimento no Centro Cultural de Moledo

6ª feira, 2 de Fevereiro, 21.30 h

 

No âmbito da campanha para o referendo nacional sobre a interrupção voluntária da gravidez, vai realizar-se no concelho de Caminha uma sessão de esclarecimento organizada por um grupo de cidadãos de Caminha e apoiada por alguns dos mais destacados movimentos pelo SIM, a saber, Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim, Em Movimento pelo Sim, Movimento Voto Sim, Jovens pelo Sim e Médicos pela Escolha.

Esta iniciativa terá lugar no Centro Cultural de Moledo na próxima sexta-feira, dia 2 de Fevereiro, pelas 21.30h, e contará com a participação de:

 

— Drª. Milice Ribeiro dos Santos, psicóloga e terapeuta familiar, professora na Escola Superior de Educação do Porto, voluntária da Associação para o Planeamento Familiar e investigadora na área da psicologia da educação e da família;

  Enfermeira Carminda Morais, professora na Escola Superior de Enfermagem de Viana do Castelo, especialista em saúde pública e com uma vasta experiência em intervenção comunitária directa junto de famílias e grupos desfavorecidos;

  Dr. Germano Amorim, jurista e advogado em Arcos de Valdevez, mandatário distrital do Movimento Jovens pelo Sim

 

O objectivo desta sessão e da campanha pelo SIM no concelho, é o esclarecimento e a mobilização dos caminhenses para a participação no próximo dia 11 de Fevereiro, visando evitar a repetição da forte abstenção registada aquando do primeiro referendo de 1998 para que possa finalmente resolver-se um grave problema de saúde pública, através de uma lei justa e equilibrada. Porque é tempo de respeitar a dignidade das mulheres portuguesas e colocar Portugal, neste aspecto, ao nível da esmagadora maioria dos seus parceiros europeus.

Posted by Germano Amorim at 14:33:51 | Permalink | Comments (3)

Thursday, February 1, 2007

País a meio gás…

Foi anunciado o aumento de preços do gás para o interior português e Algarve. Esta notícia é perturbadora por preanunciar a continuidade de uma política que cada vez mais se revela acentuadora de discriminação negativa para o interior, ou, melhor dizendo, para a dita província. Vivemos indubitavelmente num país a duas velocidades. Portugal está dividido entre uma determinada zona litoral e o resto do país. Risíveis no mínimo as intenções sobre uma alegada regionalização decalcada sobre o actual mapa dos actuais Centros de Coordenação de Desenvolvimento Regional. Só alguém puramente inocente ou de pura má fé poderá acreditar na real e efectiva vontade de regionalizar, quando não são apontados sequer quaisquer sinais de descentralização por parte do governo e muito menos formas de implementação de medidas que permitam crer aos portugueses que há uma vontade efectiva de combater a desertificação, o abandono e o envelhecimento populacional do interior lusitano. Que futuro se pretende para o tal desenvolvimento sustentável? Quais as políticas de desenvolvimento regional a serem seguidas?

Pelo que se tem assistido apenas poderemos chegar à conclusão de que não há qualquer política a não ser engordar os centros populacionais litorais. A gravidade de toda esta situação reflectir-se-á no agravamento da perda de qualidade de vida para todos. As cidades portuguesas são altamente deficitárias na oferta de serviços de qualidade para os seus habitantes. Os transportes públicos são escassos e geralmente de má qualidade; a oferta de fogos habitacionais é escassa e por isso cara; os índices de poluição são altíssimos. Muito mais poder-se-ia dizer acerca da vida citadina, porém será futuramente um tema a merecer destaque individual em edição própria. Enquanto isso, o interior vai ficando sem gentes… ditado claramente ao abandono. A medida anunciada deveria ser exactamente oposta! Tem de ser criadas formas concretas para atrair cidadãos para outras zonas do pais que não as do litoral de modo a que se crie riqueza, prosperidade e equilíbrio. Há muito tempo que os movimentos demográficos a nível mundial anunciam a tendência para criação de grandes aglomerados populacionais com a criação de megalópoles. Todos os especialistas sem excepção afirmam as terríveis consequências que daí advirão. O que fez Portugal? Mais uma vez nada! O que continua a fazer para inverter essa tendência? Exactamente incentivá-la! Veja-se outro exemplo a nível de políticas sobre natalidade por parte da Alemanha que anunciou que partir deste ano qualquer casal receberá vinte e cinco mil euros por cada filho que nascer. Cá o que se faz? Nada… É confrangedor viver num país que vive de braços cruzados à espera que algo aconteça.

Metades dos trabalhadores por conta de outrem perderam poder de compra em 2006. O aumento da inflação faz sentir-se na classe que efectivamente não tem qualquer possibilidade de se escapar ao rigoroso controlo (e ainda bem que assim o é, pena o critério não ser universal em termos reais) das finanças. Se analisarmos com cuidado as receitas fiscais obtidas nos últimos anos em Portugal deparar-nos-emos com a triste conclusão de que o IRC representa a terceira receita obtida e em nada comparável com o IRS e o IVA. Isto leva-nos a concluir que neste país pouco se produz ou os empresários, na sua maioria, não pagam impostos. Escolham. Também aqui cada vez mais se faz sentir o país a meio gás. A classe média lentamente vai-se extremando ora na sua maioria para limiares de pobreza, ora em minoria para o grupo dos abastados, se pelo menos fosse ao contrário…

  

P.S. Após ausência prolongada que se ficou a dever a uma pubalgia do “rooter” do P.C., cá estou de volta e com saudades dos vossos comentários.

Este artigo já estava escrito há algum tempo atrás mas devido à premência do assunto decidi publicá-lo da mesma forma.

Prometo actualizar rapidamente as respostas aos comentários em atraso.

Muito obrigado aos fiéis leitores que pacientemente visitaram a Província durante este período de interregno.

Posted by Germano Amorim at 15:45:33 | Permalink | Comments (2)