Terça-feira, Fevereiro 13, 2007

Aborto final

Apesar de tardia a minha opinião, não poderia deixar de comentar os resultados sobre o referendo e suas consequências.

Em primeiro lugar, manifestar o meu agrado pelo resultado obtido, permitindo a Portugal, ainda que uns bons anos atrasados, virar esta página sobre o obscurantismo que persiste ainda em atormentar-nos. A pesada herança de um estado, que de novo afinal nada tinha, ainda hoje se vai revelando de forma bastante expressiva. Foi indubitavelmente a vitória da laicização do estado.

Em segundo lugar, fazendo uma leitura atenta dos resultados por concelho, constatamos facilmente que a maior expressão dos votos no Não se verificou onde a igreja ainda hoje mantém a sua influência. Especialmente em meios rurais mais virados a norte foi expressiva essa vitória. Atente-se por exemplo aos resultados obtidos em Arcos de Valdevez em que mais de 70% dos cidadãos não se pronunciaram e os que se pronunciaram votaram contra a alteração da lei vigente. De referir que o Sim obteve vitórias nas freguesias mais urbanizadas. Não podemos também ignorar o quase total alheamento dos meios de comunicação social locais em relação ao assunto. De facto é para mim incompreensível e lamentável que um assunto tão delicado e de relevantíssima importância não tenha despertado o interesse dos media locais. Por iniciativa da plataforma do Movimento de Intervenção e Cidadania realizou-se em Arcos de Valdevez um debate com três representantes de cada um dos movimentos opostos. Público muito escasso, o que já se contava. Sinais de interesse por parte da comunicação social (se assim lhes pudermos chamar)? Rigorosamente algum! Com excepção de um director de um jornal local, que estava presente enquanto cidadão e não como jornalista (se assim lhes pudermos chamar) ninguém compareceu à chamada. Lamentável. De facto, com excepção do concelho de Caminha, em que o Sim obteve uma vitória importantíssima e onde tive a oportunidade de estar presente em época de campanha numa sessão de esclarecimento como orador (curiosamente teve direito a transmissão em directo através dos microfones da Rádio Afifense, que aqui se congratula), todo o distrito de Viana do Castelo espelhou bem a sua realidade actual, tema que levará a novas reflexões em artigo próprio. Os níveis de abstenção altíssimos demonstram que as populações locais não gostam de se incomodar e de participar em questões de cidadania, o que me leva à conclusão final sobre o referendo.

O que fazer com o referendos? Já tinha dito anteriormente que a abstenção seria o principal inimigo do Sim. De facto a abstenção é o grande perigo actual de todas as democracias. A democracia vive do voto e sem este acto tudo se confina a um mero exercício de minorias que mais ou menos esclarecidas vão-se dando ao trabalho cada vez mais complexo de estarem atentos. Do ponto de vista estritamente jurídico o referendo não obteve os 50% de votos necessários para que fosse vinculativo, porém, quase unanimemente foi reconhecido a vinculatividade política que dá garantias ao legislador de pacificamente alterar esta lei sem convulsões sociais. Portanto o problema obrigatoriamente deve colocar-se a jusante, ou seja, apesar de existir a figura referendária será que no momento actual da vida política devemos correr o risco num futuro breve de sobre matérias tão complexas repetir a experiência? Penso que não. Está comprovado que o mais directo exercício de democracia não colheu os resultados esperados e produziu apenas o adiamento decisório de questões tão fulcrais como esta. Elegemos os nossos representantes e estes melhor do que ninguém deverão retirar as ilações devidas. Este referendo apenas existiu porque exactamente há nove anos atrás Guterres, entalado entre as pressões partidárias e as suas convicções pessoais, foi socorrido por Marcelo que se lembrou da figura do referendo como forma de descalçarem a bota da penitência cristã. Com uma agravante, Marcelo seria ao tempo o claro vencedor e Guterres cego não o quis ver. Hoje foram os dois derrotados!

Mais uma nota final sobre a inacreditável capacidade do Presidente não dar cavaco a ninguém sobre o que pensa. E a primeira-dama? Sendo que se descobriu recentemente a sua vocação de centro esquerda, de que forma teria votado? Suscitou a minha curiosidade confesso…

 

P.S. não resisto à tentação de perguntar aos meus caros leitores se por acaso já viram nas manhãs do Canal 1 da RTP a rubrica diária “Minuto Verde”? Aconselho vivamente! É uma paródia muito pedagógica onde aparece um senhor da Quercus, muito parecido com aquele cozinheiro louco dos Marretas, que nos dá fantásticos conselhos sobre o meio ambiente. Por exemplo, hoje brindou-nos com um passeio em sua casa nas suas felpudas pantufas, julgo eu de pele (será ecologicamente correcto?) onde nos explicava que andar com os sapatos que vinham da rua era prejudicial ao saudável meio ambiente da casa. Fantástico! Isto vai salvar os ursos polares de certeza absoluta! A não ser que o cheiro dos pés seja ainda mais prejudicial. Questão interessante… talvez amanhã nos brinde com mais uma pérola referente ao tema dos sapatos de fora e aos caseiros. Possivelmente talvez tenhamos aqui material para toda uma saga! “Ecologistas (escandalosamente protegidos pelo canal do estatal) à beira de um ataque de nervos por não terem nada para falar que não seja de chinelos…” é a minha proposta para o título do primeiro filme.

Falando a sério, o ambiente é um tema demasiado sério para ser tratado de forma tão absolutamente ridícula! Se não acreditam em mim vejam por favor e deliciem-se: http://multimedia.rtp.pt/videobeta/destaques_video_conteudo.php Cliquem em Minuto Verde.

Publicado por Germano Amorim em 14:36:18 | Permalink | Comentários (5)