Terça-feira, Março 13, 2007

De volta…

Agora entendo a necessidade do compromisso. Através de um mero blog e de um longo período de ausência forçado percebi a importância extrema da necessidade de ligação constante, dedicada, por vezes esforçada, por vezes genuinamente sentida, mas, ao longo deste tempo não deixei nunca de pensar em todos. Naqueles que me acompanharam, no que deixei de escrever, no que gostaria de ter escrito, nas críticas que me teceram, nos que nunca leram, nos que eu gostava que tivessem lido. Estranha esta ligação a algo que em nada nos prende a não ser a derradeira satisfação de termos o nosso lugar no mundo. Por mais pequeno que seja, por mais insignificante que pareça a alguns mas que pela sua indiferença já demonstraram exactamente o contrário. Que também viram, que também leram, ou apenas espreitaram, sem coragem de comentar ou sequer dizer adeus. Porque no fundo esses mesmos que tão mal vão dizendo são exactamente os que mesmos que continuarão espreitando sem um dia dizerem nada por nada terem para dizer a não ser o que já foi dito. Assim é fácil e só é possível porque antes de nós já alguém se deu ao trabalho de dizer.

Este compromisso é meu e só meu! E de quem o queira acompanhar…

 

Não poderia deixar de fazer referência a dois acontecimentos que são os seguintes: o primeiro, o grande sinal de vitalidade da sociedade civil arcuense que em massa ocorreu em protesto pelo fecho das urgências. A meu tempo já tinha escrito sobre o assunto e portanto apenas gostaria de fazer referência ao facto de este movimento se ter superiorizado a qualquer intenção egocêntrica de busca do protagonismo. Próprio de uma sociedade não habituada ao mediatismo e a equipas de reportagem. Parabéns arcuenses.

O segundo foi a morte de Manuel Galrinho Bento, “natural da Golegã, em 25 do seis do 48″, tal como repetidamente dizia e diz o meu amigo Francisco e que à sua repetitiva conta acabamos por decorar tal acontecimento.

Bento era e será sempre parte do meu imaginário do mundo do futebol. O seu bigode paternal e a forma inimitavelmente decidida e convicta com que voava em cada lance em busca do seu derradeiro desafio: a bola. Não uma bola qualquer! A bola que não podia expugnar as redes do Glorioso ou da selecção nacional. Aquela que todos nós sonhámos em apanhar porque queríamos ser como ele! O seu temperamento muitas vezes irascível era de certa forma a personificação do português abnegado, duro, pequeno mas com um brio enorme! Só alguém assim teria a coragem de liderar um grupo de autênticos revolucionários capazes de usarem a prerrogativa constitucional do direito à greve em pleno campeonato do mundo!

Adeus Bento… o nosso número 1!

Publicado por Germano Amorim em 17:01:33
Comentários

Uma Resposta

  1. Francisco diz:

    Manuel Galrinho Bento, 25 do 6/48 ;) chegou à Luz, vindo do Barreirense, em 1972. A estreia foi em Faro a 22 de Abril de 1973.Nessa altura a baliza encarnada era de José Henriques, e Bento teve que esperar pela época de 1976/77 para ganhar a titularidade definitiva.
    Eu comecei a viver o Benfica desde a escola primária, depois, havia o meu querido Amigo Nº1, mas da amizade Germano Amorim que vibrava como ninguém com o Benfica, e que desde sempre simpatizava com a irreverência do Manel. Depois foi crescer, aprender o que é o Benfica, estar cada vez mais perto do clube, ver centenas de jogos do Benfica pela televisão, coleccionar cromos, comprar as revistas “Onze” e “Foot” e ter sempre uma referência: Bento.
    Para mim não havia dúvidas, o Benfica começava no número 1, o resto vinha por acréscimo. Daí até querer seguir os passos do capitão foi um tirinho. Na altura as nossas brincadeiras, dizia eu ao Germaninho: Manuel Galrinho Bento, 25 do 6 48, Natural da Golegã!!! Era a nossa referência, pela sua postura e dedicação ao nosso clube, pela fotografia em que o Pai do Germaninho,meu querido amigo,também com o seu bigode,e também de nome Bento, nos mostrava quando ia ao lado dele numa viagem de avião…Dois Bentos de bigode ao lado um do outro, dizíamos nós orgulhosos!!! E quando íamos jogar à bola, Germano,lembras-te? Eu não hesitava, a baliza era minha. Isto é, o espaço entre dois calhaus no chão era meu.Depois veio o “gimno”… Como não podia deixar crescer o bigode, e não tinha caracóis tinha que adoptar outra característica para mostrar a minha marca Bento. Então lá andava eu a defender sempre com os braços em arco bem afastados do corpo e ligeiramente inclinado para a frente, imitando na perfeição aquele jeito castiço que Bento tinha quando caminhava. E, claro, as grandes birras com a minha Querida Mãe,que está sempre presente comigo, para ela me comprar a camisola Adidas azulada que o Galrinho usava. Claro que a minha Querida Mãe me deu.
    Discussões com os amigos naquela altura eram inúteis, eu tinha o Bento não havia maneira de não os calar sempre. Uns atiravam com o grande Manel Fernandes, ou Jordão, outros idolatravam o grande Gomes, mas eu nem precisava de avançar no terreno e evocar Nené, ou Filipovic, ou Maniche… Não era preciso, para os grandes avançados dos rivais uma palavra: Bento. E pronto, acabava a discussão sobre melhores e piores.
    Que melhor incentivo, e lição de garra, pode ter um miúdo de 9 anos ao ver como Bento reagiu a um toque de Manel Fernandes em Alvalade com o resultado em 1-1? Estava ali tudo o que um puto precisa de saber. Se estou deitado com a bola na mão, e o adversário me pisa, mesmo que por acidente, um gajo tem é que se levantar e ir atrás dele e aviá-lo logo ali! Mais nada. Ok, foi para a rua e perdemos 3-1, mas a lição estava dada! :)
    Ter o Bento na baliza era um descanso de valor incalculável. Os jogos sucediam-se e raramente o via a ir buscar uma bola ao fundo das redes. Na Luz passava muito tempo a olhar para ele quando o jogo estava no outro lado do campo. Bento não parava quieto, corria o tempo todo de um lado para o outro na sua grande área. Estava a aquecer, aprendi eu com os jornalistas da altura. Isto para quando fosse preciso estar preparado para defender. E resultava. Nunca mais vi um guarda redes a aquecer daquela maneira durante os jogos. A maneira como batia com as chuteiras contra os postes da baliza para tirar a terra era única. Eu queria usar chuteiras só para poder imitar aquele movimento.
    Depois havia uma imagem de marca espectacular. A maneira como Bento lançava ataques colocando a bola onde queria, no companheiro que queria só com a força do braço e perícia da mão. Os lançamentos à mão do Bento eram impressionantes. Nunca mais voltei a ver tal coisa. Da mesma maneira que um pontapé de baliza dele quase sempre resultava em ataque nosso.
    Depois havia os recitais entre os postes, e fora deles. Saltava mais alto que todos, atirava-se para os lances mais confusos com uma convicção incrível, e numa vez até se sentou em cima da trave! E nos penaltis tínhamos sempre grande esperança que ele fosse lá buscá-la.
    Há um penalti na Luz a favor do FC Porto que podia dar a vitória aos azuis. Gomes vai marcar. Bento defendeu, e como se não fosse nada com ele preocupou-se logo em lançar a bola para o contra ataque.
    Bento tinha tanta classe que até nos golos sofridos era uma figura! A imagem era sempre a mesma, um golo sofrido por Bento significava que nos segundos a seguir iamos ter direito a grande correria do nº1 em direcção ao fiscal de linha, ou do árbitro, ou do primeiro companheiro de equipa que apanhasse à frente. A culpa nunca era dele. Nunca! E não era mesmo.
    Porque quando a culpa era do Bento então aí era coisa em grande, à séria. Das raras vezes que resolvia enterrar eram momentos épicos de tão raros. Pela Selecção levou 5 da União Soviética em Moscovo. Foi da alimentação. Em Anfield Road levou 3 do Liverpool. Foi da iluminação. Na Luz levou 4 do Liverpool. Bem aí foi do…Ian Rush!
    Só que no jogo a seguir, não só recebia monumentais ovações do 3º anel, como rubricava fabulosas exibições. Essas são as mais fáceis de serem lembradas; Estugardaem 85, França’84, o jogo que fez no México 86, na Escócia pela Selecção, em Roma, muitas nas Antas, muitas em Alvalade, e quase todas na Luz.
    Uma dúvida eu tive! Pois bem, eu tive e confrontei o meu Amigo Nº1 Germano Amorim com ela. Perguntei-lhe, num dos inúmeros nossos momentos de convívio o que ia acontecer ao Benfica quando o Bento deixasse de jogar?! Ninguém me soube responder. Fiquei sempre com essa angústia no meu subconsciente. O meu problema não eram os anos seguintes, sim porque eu sabia que o Bento ia durar até eu ser adolescente, ele não se lesionava, muito raramente ele perdia um jogo. Para mim era tão natural ter o Bento em campo como estarem lá as balizas, ou os postes com as bandeiras dos clubes a jogar atrás da baliza. Mas quando ele saísse?!
    Assim foi uma forma de me preparar para esse dia, nunca me tinha passado pela cabeça como seria depois de ele morrer. Isso nunca me passou pela cabeça.
    A verdade é que em 1986 ele tem a lesão, até aí foi coisa em grande. Uma lesão a sério, à Bento! Pé partido. Pronto, estava levantado o drama.
    A partir daí foi ver a baliza do Nosso Benfica desprotegida. Ver o Silvino a titular não fazia sentido. O Silvino jogava no Setúbal, e no Aves!! Como era possível ir para o lugar do Bento?! O Neno era bom moço, mas também não convencia. Esses dois juntos não faziam um Bento. E depois? Ver o Bossio naquele lugar dava vómitos. O único que dignificou o nosso nº1 foi o belga Preud’Homme. Mas não foi melhor que o Bento, nem pensem nisso! O Bento foi o melhor.
    Muito obrigado por tudo Bento, até sempre!!!Presente.

    Grande Abraço para Ti,Ilustre Amigo Germano Amorim, o meu melhor amigo,o meu Nº1.
    Francisco.

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