Quinta-feira, Abril 19, 2007

Sarkolène

As eleições em França são o paradigmático sinal do talvez último despertar da mulher para a sua derradeira emancipação. Não por ser novo, vejamos os casos alemão, finlandês, irlandês e o surpreendente caso africano da Libéria onde Ellen Johnson-Sirleaf obteve uma vitória sobre o ultra mediático George Weah.

Na França, bem como nos Estados Unidos temos duas possíveis vencedoras às eleições presidenciais. Porém, para Segolène, ao contrário de Hillary, parece bastar o simples facto de ser mulher, aliado ao sempre bem vindo preconceito de que ser de esquerda é “fixe”, para que desde há muito possa exibir-se como a candidata vencedora. Pouco há a saber sobre o saber da candidata. De facto, é uma figura controversa por constantemente adoptar posturas conservadoras em relação a muitos assuntos sociais, principalmente no que respeita aos valores tradicionais sobre a família e à rejeição permanente de qualquer tipo de manifestação de índole sexual, tendo até inclusive lhe valido a alcunha de mère pudeur. Do outro lado temos Sarkozy, que a saber também se sabe pouco sobre o seu pensamento, a não ser também acerca do seu estilo autoritário e as suas polémicas intervenções aquando dos tumultos últimos que assolaram França. De um lado ou de outro impera um quase vazio assente em duas imagens preconcebidas e talvez bem mais próximas do que julgaremos. O retrato real da política de hoje. Constroem-se bonecos com determinadas cores e chavões ficando secundarizado se o seu pensamento doutrinário vá corresponder ou não com as suas práticas. Porém, neste momento Sarkozy é neste momento o boneco melhor posicionado e capaz de chamar a si um eleitorado tradicional de direita que se revê nas suas posições, fragilizando dessa forma Le Pen. Bayrou será um osso muito mais duro de roer neste momento para Ségolène, bem como a disseminação generalizada de votos nas várias esquerdas que far-se-á sentir de forma mais significativa.

Na junção dos dois talvez conseguíssemos observar uma candidatura mais verdadeira e próxima do pragmatismo actual de fazer política. Seria uma espécie de Sarkolène que juntaria decomplexadamente direita e esquerda e portanto permitiria uma maior sinceridade nas opiniões. Talvez até houvesse propostas e discutissem ideias com outras candidaturas bem nos extremos!

A ver vamos se nos EUA a história repetir-se-á com o Giuliani e Clinton que saibamos nós nem sequer toca saxofone!

 

P.S. Cho Seung-Hui’s é o nome da besta responsável pelo massacre na Virgínia. Um país tão admirável quanto abominável que continua a permitir o livre acesso a qualquer tipo de armas de forma perfeitamente irresponsável! O proteccionismo ao lóbi das armas terá que um dia terminar sob pena de continuar um tipo de sub cultura bélica e paranóica com tendência à proliferação e nos últimos tempos com os resultados que estão à vista de todos.

Publicado por Germano Amorim em 13:07:27
Comentários

2 Respostas

  1. Francisco diz:

    A industria do armamento é a 5ª maior (salvo erro) no mercado dos EUA. Se “abrandarem” a economia pode entrar em colapso.
    Cada povo tem a constituição que merece (e escolhe).
    Então o acesso indiscriminado, nos EUA, às armas de fogo, pistolas, carabinas ou metralhadoras, nalguns Estados, como o do Texas, até a jovens com mais de 14 anos de idade, e que a Constituição dos EUA consagra como um direito de cidadania, não é antes um criminoso negócio que deixa à loucura dos milhares (ou milhões?) de doidos à solta para já não falar nos criminosos que não sejam doidos, a possibilidade de matanças como esta? É que não é primeira nem a décima nem a última vez que isto acontece numa escola. Para não falar em coisas como Oklahoma.
    Isto deve estar, como é natural, julgo eu, a impressionar muito a América. E a fazê-la pensar. Mas isto é apenas uma gota de água comparada com o oceano do Iraque alagado não por um criminoso ou um louco mas por um governo. O seu. O de W. Bush. Número de mortos a caminho do milhão. Deslocados internos 1,9 milhões, fugidos para o estrangeiro 2,2 milhões de pessoas.
    E como sabemos isto incomoda pouco a América. Porque o Iraque fica longe. E os iraquianos não são americanos e para muitos apologistas da guerra, nem talvez verdadeiramente pessoas.
    Também no Iraque, em cada dia, atenda-se em cada dia, o massacre é bem maior. Também não tem culpa quem morre.
    Bush para esses não “prega”.
    Lamento que continuem inocentes a pagar com a propria vida pela hipocrisia politica e com o acesso indiscriminado,nos EUA, às armas de fogo, pistolas, carabinas ou metralhadoras, nalguns Estados, como o do Texas, até a jovens com mais de 14 anos de idade, e que a Constituição dos EUA consagra como um direito de cidadania, que não é antes que um criminoso negócio.
    Para reflexão.
    Como tu dizes,os EUA,um país tão admirável quanto abominável,e como eu acrescento, de alguma mentalidade terceiro-mundista e em que tudo vale para haver negócios…
    Grande Abraço Ilustre Amigo Germano Amorim

  2. Francisco diz:

    Sarkozy é um homem de uma direita autoritária, nacionalista, e que por estratégia eleitoral decidiu conquistar o eleitorado de Le Pen.
    Le Pen foi um dos candidatos mais punidos,ainda bem, regozijo-me com isso,e muitos dos seus potenciais votantes transferiram-se para Sarkozy, um candidato em quem, apesar de tudo, podem assumir que votam e com mais possibilidades de chegar ao Eliseu.
    Este fascismo que irá dar ainda mais o voto útil na 2ª volta a Sarkozy,utiliza os mesmos passos que anteriormente outros movimentos já utilizaram para ganhar o poder. Insegurança, racismo e fomentação de um certo nacionalismo são imagem de marca de regimes ditatoriais.São esses mesmo que votaram em Le Pen que irão votar em Sarkozy. A história já nos ensinou o que acontece nos países que adoptam regimes ditatoriais, mas no entanto parece que há sempre uma parte da sociedade que não consegue aprender essa lição.
    Ulltimamente certos senhores bem pensantes cá do burgo, a proposito do Salazar e agora destes seus filhotes serôdios o PNR, falam muito em democracia, e ser-se democrata.
    A democracia constroi-se com democratas e não com anti-democratas.
    A democracia defende-se denunciando aqueles que aproveitando-se da liberdade que nunca deram nem dariam se fossem de novo poder, fazem campahas racistas xenofobas ,e tentam limpar os crimes de Salazar , ignorando os homens e mulheres que ele mandou deportar, torturar, e no limite assassinar.
    Se Salazar sempre censurou os seus opositores porque é que não pode ele agora ser censurado.
    Se Salazar nunca foi um democrata, porque é que a democracia o tem de tratar como se ele o tivesse sido.
    A França não é Portugal a França não é por tradição um país de emigrantes, a França não tem como Portugal 4.000.000 de portugueses a trabalharem pelo mundo fora.
    Por isso as campanhas anti-imigrantes ,portugueses incluidos, têm algum eco na sociedade francesa, Le Pen fazendo apelo aos sentimentos mais primários do homem, tem conseguido passar a sua mensagem xenofoba e racista.
    Os votantes deste,darão o voto útil a Sarkozy.
    O mal é que que dentro da direita classica, não os seguidores de De Gaulle por ele era totalmente contrario a esse tipo de ideias, existem pessoas que para caçarem votos, estão dispostos a tudo até a seguirem metodos que Le Pen não recusaria.Sarkozy agradece.
    Aliás o dito PNR é apoiado pelo movimento do Le Pen que ataca em França os portugueses, e as suas campanhas são decalcadas da realidacde francesa. Olhando com atençao o que se passa em França, será a melhor forma dos democratas portugueses, matarem a serpente no ovo.
    Talvez Sarkozy, ao contrário de Le Pen, não sustente as suas acções com um discurso ideológico. É apenas um populista à caça do voto. Mas é na ausência de limites se revela perigoso. E é melhor nunca esquecermos: é na relação com os imigrantes, os mais desprotegidos e mais pobres dos alvos possíveis, que a já longa história de tiranias na Europa se tentará refazer. E ela dificilmente chegará mais longe através da extrema-direita clássica. Diz como tratas um imigrante e eu direi como um dia me tratarás a mim.
    Grande Abraço,Ilustre Amigo Germano Amorim.

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