Na passada terça feira tive a oportunidade de assistir em diferido ao excelente debate promovido pelo programa Prós e Contras. De um lado adeptos confessos da causa monárquica, do outro, republicanos, grupo no qual naturalmente me insiro.
Naturalmente, porque assim fui educado e aceitei essa orientação axiológica de forma pacífica e sem qualquer tipo de sobressaltos. Aliás, tive o privilégio de receber, essencialmente através do ensinamento do meu pai e meu avô paterno, por herança directa do meu bisavô, Dr. Germano Amorim, toda uma série de ensinamentos de alguém que lutou pela instauração de um regime. Esse homem curiosamente tem uma história de vida que em muito se coaduna com a actual discussão. Filho de lavradores, natural de Monção, propriamente da freguesia de Mazedo, seria um dia obrigado, precocemente e conforme as regras sociais e económicas da sociedade de então o ditavam, a abandonar a casa de seus pais. Foi trabalhar para uma mercearia no centro da vila monçanense. A tristeza rapidamente abater-se-ia sobre a sua vida. De facto aquela obrigação que rapidamente transformar-se-ia em tristeza absoluta era descrita pelo próprio, na primeira pessoa, quando contava que um dia, comendo um prato de arroz com ervilhas (de quebrar, pelo menos sempre assim o imaginei) as lágrimas escorriam-lhe face abaixo de forma contínua e convicta terminando em seu prato. Aquela não era a vida que ele desejaria ter. Assim, tendo um dia se enchido de brio e coragem, haveria de dizer a seu pai que não voltaria mais a trabalhar naquele local. O que ele queria era estudar e se tal não fosse possível, voltaria então para a aldeia para se dedicar à alfaia agrícola. Um dos seus irmãos era padre em Guimarães, tendo portanto acesso ao ensino. Meu trisavô, tendo ficado em silêncio perante tal sentido pedido, durante um tempo obrigatoriamente reflectido, responder-lhe-ia que mandaria uma carta a seu outro filho para indagar da possibilidade de ele poder ir estudar para o liceu em Guimarães. Tal pedido viria a ser atendido, tendo o convicto Germano acabado por cumprir seu desejo. Mais tarde enveredaria pelo estudo de Direito na Faculdade de Direito de Coimbra, tendo terminado a sua licenciatura no dia 9 de Julho de 1910. Emblemática ano. Confesso que não sou um profundo conhecedor do seu percurso académico e seu envolvimento na vida política activa, desses anos, que seria com certeza bastante intensa, dado a sua participação enquanto Deputado na Assembleia Nacional logo nos primórdios da 1.ª República.
Voltando um pouco atás na história de sua vida, por meados do ano que coincidiria com o término da sua licenciatura, viria a conhecer aquela que seria sua mulher. Essa união era amiúde descrita pelo próprio como a de um simples homem do povo que viria a casar com uma fidalga da Casa da Amiosa na freguesia de Valadares, também em Monção. Efectivamente, o jovem republicano e ainda hoje grata figura que seria confundida com a própria liberdade e político da causas convictas, um republicano laico e livre pensador, conforme o mesmo gostava de se auto descrever, foi casar com uma das herdeiras de uma casa intimamente ligada por regras fixas de hereditariedade à monarquia mais remota desde os tempos de D. Afonso Henriques. Apesar de tudo isso, a educação que viria a ser transmitida a seus descendentes sempre foi assente nas mais profundas convicções do republicanismo. A trilogia liberdade, igualdade e fraternidade, não eram de facto letra morta ou mera frase de campanha politicamente correcta. Nunca, em tempo algum, qualquer dos ensinamentos que foram transmitidos passaram pela crença de que qualquer que fosse o homem estaria mais sujeito a qualquer tipo de tratamento especial por questões de ordem de hereditariedade genética, ou, uma qualquer fantasiosa opinião de que há uma qualquer predisposição de alguns para assumirem o poder. A dignidade da pessoa humana não pode ser mensurável através de factores de ordem familiar e genéticos. Se assim não fosse, conforme defendem os adeptos da causa monárquica relativamente ao chefe de estado, ponderando essa ideia de forma mais ampla e alargada, porque não alargar o conceito, que vale para a chefia de estado, a outros lugares de chefia? Porque é que esse raciocínio, que não mais constitui do que uma espécie de falso evolucionismo genético e elitista, não deverá estar adaptado a outros conceitos e lugares de estado?
Quem nos garante que a causa monárquica ficaria por aí?
Essa é indubitavelmente a pedra de toque que separará sempre e definitivamente de forma impossivelmente conciliatória a República da Monarquia. A República acredita na meritocracia para todos, independentemente do sexo, crença, religião, origem ou qualquer outro factor que eventualmente possa ser potencialmente discriminatório.
Essa é a grande lição de humanismo conciliatória com todos os cidadãos. Devemos todos ter a honestidade intelectual de não fazer confundir uma má fase da res publica portuguesa com a possibilidade de mudança de regime. De forma alguma seria essa a solução para o que quer que fosse. Seria bem mais útil melhorarmos o nosso nível de participação na cidadania através do envolvimento na sociedade civil em vez de queremos de qualquer forma criar uma crise de regime que não existe. É apenas a vontade de alguns, poucos, arreigados, quer queiram quer não, a valores de referência ultrapassados e anacrónicos.
A todos e cada um de nós cabe o direito de sonhar e chegar onde a sua própria vontade e valor o poderá levar, em profundo respeito pelo valor da igualdade que poderá constituir o último reduto da liberdade fraternalmente entre cidadãos.
Por entre acordes esotéricos de Mogwai que nos propõem o transporte a uma outra realidade, ou a analisar uma perspectiva diferente dessa mesma realidade, penso no dia da mulher e na inevitável maior manifestação de sempre da classe docente que o país já assistiu.
Penso na tenacidade de mulheres e homens que na casa de uma idade que crê já bem mais no conforto do que propriamente na utopia das lutas de rua, acreditaram que a sua presença seria hoje impresncindível. Mas, hoje, em particular, lembro-me da mulher. Lembro-me de minha mãe e da sua corajosa inconformidade com o estado letárgico que parece que está instalado no país, tal dia de nevoeiro à beira mar plantado. No fundo, todos sabemos o que está para além da névoa. Apenas não compreendemos porque insiste o sol em não raiar e libertar milhares de pessoas a caminho desse mar.
Esse caminho tem que ser feito por corajosos que não se conformam. Por quem, como uma espécie de teimosia sem sentido, não se deixa resignar perante a realidade. Por quem acredita na beleza de acreditar que algo poderia ser melhor. Que se deixam levar pelo embalo de um sonho lúcido por que capaz de alcançar.
Apenas esses podem mudar o mundo. Hoje essa tarefa cabe aos professores. Essa classe que ao longo dos últimos anos não tem sido se não caluniada e desprezada. Num país de analfabetos iliteratos e maioritariamente incultos, nada melhor do que escolher como alvos os que vão ensinando. É uma espécie de terapia psiquiátrica que revela um imenso ódio de estimação aos que simbolizam conhecimento.
Dirão alguns que esta manifestação não mais está relacionada do que com a manutenção de um certo status quo aliado a esta profissão. Para muitos, ser professor não é mais do que obter regalias de um estatuto que em nada coincide com a dignidade da profissão. Mas haverá profissão mais digna do que ensinar? Mas o que pretendem afinal muitos do que senão o nivelamento por baixo de todos os sectores profissionais? Já que eu não ganho bem, tu não podes ganhar melhor! Este é o vil e mesquinho raciocínio imperante na sociedade portuguesa. Sociedade ainda corroída pela desconfiança e inveja. Males endémicos de um país cada vez mais adiado sem rumo certo.
Hoje não está em causa um governo. Não está em causa uma ministra. Um partido político. Qualquer sindicato que agora, pelos vistos, são efectivamente forças de bloqueio. Tudo isso é demasiado evidente. Hoje está em causa o futuro de um Estado. Hoje está em causa Portugal e todos os portugueses cada vez mais descrentes.
De nada adianta dizer que esta ministra devia ser imediatamente posta no olho da rua. Outra lhe seguirá. Importa sim marcar um dia de referência de viragem de uma nova luta que surgirá. Que nos envolve a todos sem excepção! Num virar de página que um dia foi entregue à rebeldia de jovens na sua maioria estudantes universitários. Também aí eram apelidados de intelectuais, preguiçosos e burgueses. Porém muito da sua luta foi inspiradora para várias gerações seguintes. Infelizmente as joves gerações actuais sofrem dum gravíssimo sindroma de falta de solidariedade. O seu espírito contestatário esgota-se nas manifestações anti-propina.
Por isso manifesto a minha total solidariedade e simpatia por aqueles que não se resignam! Por isso hoje, mais do que nunca, estou do vosso lado! Força!
Hoje é dia da Mulher. Não poso deixar de fazer referência a uma data que apesar de se lamentar que ainda exista, tal tem todo o sentido. O mundo ainda continua a descriminar as mulheres apesar de lentamente a face das coisas começar a mudar. Um dia assistiremos aos desesperados homens a fazer valer as leis de quotas a seu favor. Nas sociedades ocidentais tal realidade não estará assim tão distante.
A todas as mulheres ofendidas, perseguidas, violentadas, estupradas, ostracizadas, mutiladas, discriminadas, um voto de esperança.
A Internet tem causado acrescidas dificuldades aos tradicionais meios de leitura assentes no papel. Porém, o papel tem a tradicional vantagem de perdurar no tempo e ser ainda, potencialmente, o único meio de comunicação ao alcance de todos.
Digo potencialmente, não a despropósito. Portugal, tem ainda uma faixa de cerca de 10% da população que é totalmente analfabeta e mais de 50% sofre de iliteracia, ou, se quisermos, o mesmo quererá dizer, uma espécie de analfabetismo funcional. É realmente dramática esta situação. Um retrato real de um país que se pretende moderno e desenvolvido, capaz de apresentar excelentes dados estatísticos a nível de ensino, à pressão, para um espaço europeu cada vez menos unido. Hoje temos a possibilidade de realizar licenciaturas e completar o ensino secundário praticamente à custa de entrevistas esporádicas sem o mínimo de preocupação com a qualidade.
Por falar em retratos, nada melhor do que assistir a uma entrevista de Sócrates para nos apercebermos do quão enganadores estes podem ser. De facto, a entrevista a que pudemos assistir, há já alguns dias, nada mais foi do que um mero exercício da vã tentativa de transformação do sapo no príncipe perfeito. Apenas em fábulas tal acontece.
O ilusionismo de Sócrates apenas poderá resultar para os menos atentos. Nem a preciosa ajuda da parelha de comentadores/entrevistadores, que mais não pareceram ser do que suas partenaires, conseguiram disfarçar tal anfíbia realidade. Os portugueses vivem o dia a dia de forma cada vez mais descrente e preocupada. Sabem que o desemprego aumentou, que o custo de vida real subiu, que o seu poder de compra desceu, que não podem olhar o futuro sem uma imensa e perturbante descrença na vida pública que cada vez mais se arrasta pelos infindáveis corredores do poder. Arrasta-se com a cada vez mais nítida sensação de que esse arrastar se faz a troco do benefício de alguns. As várias reformas continuam por fazer.
Não confundir reformas com a destruição de direitos, que, supostamente constitucionalmente inalienáveis, se vêm a ser esboroados como frágeis castelos de areia. De facto, a destruição, a título exemplar, do Sistema Nacional de Saúde, não pode deixar ninguém indiferente. Que o diga o PS de Arnaut, principal responsável há época pela criação deste mesmo sistema, em conjunto com Manuel Alegre. De facto, o que tem sucedido ao longo destes já aparentemente infindáveis anos de governação socrática, não pode deixar qualquer pessoa de bem indiferente. A forma como se alteram as expectativas de vida dos cidadãos é simplesmente cruel. Que dizer das reformas? O que adiantou planear uma vida, quando, num ápice, tudo se vê alterado? Que diz o PS que dantes defendia a vida além do défice? Um ensurdecedor silêncio é praticamente dominante, interrompido aqui e ali ocasionalmente por poucos homens livres que não temem a expressão das suas opiniões. Está instalada na sociedade portuguesa a irritante e perigosa mania de não discordar de Sócrates. Valha-nos a imprensa, de forma mais parca e a imensa blogosfera.
Pouco a pouco vai-se sentindo o desgastar de um mito. Afinal o homem é real e acima de tudo também erra. E como tem errado ao longo destes anos…