A Internet tem causado acrescidas dificuldades aos tradicionais meios de leitura assentes no papel. Porém, o papel tem a tradicional vantagem de perdurar no tempo e ser ainda, potencialmente, o único meio de comunicação ao alcance de todos.
Digo potencialmente, não a despropósito. Portugal, tem ainda uma faixa de cerca de 10% da população que é totalmente analfabeta e mais de 50% sofre de iliteracia, ou, se quisermos, o mesmo quererá dizer, uma espécie de analfabetismo funcional. É realmente dramática esta situação. Um retrato real de um país que se pretende moderno e desenvolvido, capaz de apresentar excelentes dados estatísticos a nível de ensino, à pressão, para um espaço europeu cada vez menos unido. Hoje temos a possibilidade de realizar licenciaturas e completar o ensino secundário praticamente à custa de entrevistas esporádicas sem o mínimo de preocupação com a qualidade.
Por falar em retratos, nada melhor do que assistir a uma entrevista de Sócrates para nos apercebermos do quão enganadores estes podem ser. De facto, a entrevista a que pudemos assistir, há já alguns dias, nada mais foi do que um mero exercício da vã tentativa de transformação do sapo no príncipe perfeito. Apenas em fábulas tal acontece.
O ilusionismo de Sócrates apenas poderá resultar para os menos atentos. Nem a preciosa ajuda da parelha de comentadores/entrevistadores, que mais não pareceram ser do que suas partenaires, conseguiram disfarçar tal anfíbia realidade. Os portugueses vivem o dia a dia de forma cada vez mais descrente e preocupada. Sabem que o desemprego aumentou, que o custo de vida real subiu, que o seu poder de compra desceu, que não podem olhar o futuro sem uma imensa e perturbante descrença na vida pública que cada vez mais se arrasta pelos infindáveis corredores do poder. Arrasta-se com a cada vez mais nítida sensação de que esse arrastar se faz a troco do benefício de alguns. As várias reformas continuam por fazer.
Não confundir reformas com a destruição de direitos, que, supostamente constitucionalmente inalienáveis, se vêm a ser esboroados como frágeis castelos de areia. De facto, a destruição, a título exemplar, do Sistema Nacional de Saúde, não pode deixar ninguém indiferente. Que o diga o PS de Arnaut, principal responsável há época pela criação deste mesmo sistema, em conjunto com Manuel Alegre. De facto, o que tem sucedido ao longo destes já aparentemente infindáveis anos de governação socrática, não pode deixar qualquer pessoa de bem indiferente. A forma como se alteram as expectativas de vida dos cidadãos é simplesmente cruel. Que dizer das reformas? O que adiantou planear uma vida, quando, num ápice, tudo se vê alterado? Que diz o PS que dantes defendia a vida além do défice? Um ensurdecedor silêncio é praticamente dominante, interrompido aqui e ali ocasionalmente por poucos homens livres que não temem a expressão das suas opiniões. Está instalada na sociedade portuguesa a irritante e perigosa mania de não discordar de Sócrates. Valha-nos a imprensa, de forma mais parca e a imensa blogosfera.
Pouco a pouco vai-se sentindo o desgastar de um mito. Afinal o homem é real e acima de tudo também erra. E como tem errado ao longo destes anos…