
Segue-se o discurso comemorativo do 25 de Abril de 1974, em representação do PSD, na AM de Arcos de Valdevez:
Celebram-se hoje 34 anos sobre uma das mais significativas e marcantes datas que mudariam o rosto e destino de Portugal e dos portugueses.
Esta efeméride, deverá ser sempre comemorada, sob forma de recordarmos aqueles que bravamente lutaram contra um regime ditatorial, absolutamente cerceador das mais elementares liberdades individuais, bem como do claríssimo contributo para o adiamento de uma pátria cansada, fechada e prostrada a um isolamento, que nos impediu durante décadas de acompanharmos a senda do progresso mundial. Marcou-se nessa data, o virar de uma página de obscurantismo, marcado por uma guerra colonial que provocou sequelas, que ainda pagamos a elevado preço.
Hoje, efectivamente, somos um país diferente. Portugal através, essencialmente, da inclusão no projecto da U.E., transformou-se num país que, durante alguns anos, obteve níveis de desenvolvimento que o aproximariam de seus pares.
Porém, o mundo está em permanente mudança. Assiste-se hoje à confrontação de desafios que até há bem pouco tempo, não faziam parte da normal agenda política.
Portugal debate-se hoje com problemas que são compartilhados com a mesma preocupação por outros países, mas, que infelizmente se têm repercutido em território nacional de forma avassaladora. A saber:
- O enorme desafio da globalização e como nos afirmarmos como país prestigiado na Europa e no mundo. O elevado incremento de níveis de competitividade económica, que, obrigatoriamente acarreta em si, um aumento de exigência a todos nós. Sobre este fenómeno não podemos deixar de trazer à colação a deslocalização dos meios de produção para outros países, caso Portugal, não tenha a capacidade de obter elevados níveis de qualidade na prestação dos seus serviços e produtividade. Assiste-se constantemente ao fechar de portas de cada vez mais empresas estrangeiras em Portugal, contribuindo para a alta taxa de desemprego que neste momento ronda os 8 %.
- A esta polémica discussão, não estão alheios os preocupantes crescimentos da desigualdade social e do empobrecimento da sociedade portuguesa. É indubitável que, Portugal é hoje dos países de toda a UE onde a repartição da riqueza é feita de forma mais injusta. Cerca de 21% da população actual, ou seja, mais de dois milhões de portugueses, encontra-se no limiar da pobreza. De referir que apenas 10 % dos mais ricos dispõem de 29,8% do rendimento nacional.
- Outro dos factos que não pode ser escamoteado é o excessivo endividamento dos portugueses. Atingindo hoje, uma impensável taxa de 124% do rendimento disponível, ou seja, gasta-se, em média, mais 24 % do que o rendimento total obtido!
- O envelhecimento populacional. Estima-se que 1/3 da população portuguesa dentro de vinte anos, aproximadamente, tenha mais de 65 anos. É urgente enfrentar um fenómeno que tem sido constantemente menosprezado e adoptar políticas de aumento demográfico capazes de impedir que 1/3 da nossa população se torne inactiva. Este é um dos dramas actuais que se fará sentir não apenas na cada vez mais deficitária Segurança Social mas e essencialmente, em sabermos encontrar formas que proporcionem uma vida condigna a todos os que se encontrarem nessa situação.
- A desertificação. É com profundo pesar que se assiste ao aumento do abandono das zonas interiores do país. A população desloca-se para o litoral em busca de riqueza e de melhores condições de vida. A aposta em cidades de capacidade populacional média deveria ser o móbil de actuação. Ao contrário, tem-se assistido a uma clara aposta de reforço de concentração dos níveis de riqueza nas zonas da grande Lisboa e do grande Porto.
- A taxa de analfabetismo em Portugal continua a cifrar-se na casa dos 10%. Ou seja, um milhão de portugueses não sabe ler nem escrever. Ainda, mais de 50%, cerca de cinco milhões de portugueses sofrem de iliteracia, o mesmo querendo dizer que sofrem de uma espécie de analfabetismo funcional.
- O grande desafio do meio ambiente e dos recursos ecológicos. Mais uma vez Portugal é deficitário nestas matérias, tendo que prontamente investir em energias alternativas não poluentes. O que se faz é pouco! Uma chamada de atenção para a escassez de água como um dos mais exigentes desafios de futuro.
- A falta de participação dos portugueses e da sociedade civil. O desenvolvimento de um país passa, inevitavelmente, pelo envolvimento dos seus cidadãos nos processos de decisão política, bem como da sua organização através da criação de associações não governamentais. Portugal padece de um problema de apatia social, potenciado por uma crescente descrença nas próprias capacidades do país, como se tivéssemos mergulhado numa espécie de letargia que nos impede de exigirmos mais, abandonando a crença num país melhor.
Estes são alguns dos dados que são francamente reveladores do que tem falhado ao longo destes anos. Mas, sendo hoje o Dia da Liberdade, da expressão do pensamento, não poderíamos deixar de tecer algumas críticas ao Governo e em particular ao Senhor Primeiro-ministro. Estes são responsáveis pelo actual estado da nação! Não há qualquer possibilidade de fuga, por melhor máquina de marketing que o Governo tenha (sabemos que a tem) porque esta é a real situação do país!
Tem havido ao longo destes anos de governação socialista uma indisfarçável vontade de controlo social e das vontades dos cidadãos em particular, à mistura com um velho estilo de arrogância, que há muito não se via. Erros de percurso crassos, inclusive, contra a matriz axiológica socialista democrática do Partido Socialista. A propósito, citando José Saramago, quando afirma que: “Já não há governos socialistas ainda que tenham esse nome os partidos que estão no poder”. São vários os exemplos do descontrolo socialista que poderíamos referir, porém, não podemos deixar de evidenciar os seguintes:
- A lenta destruição do SNS. Este é um dos claros exemplos das más políticas que têm sido praticadas. Que o diga Manuel Alegre que vai mais longe afirmando que abolir o SNS geral, universal e gratuito, é um “erro colossal“! No mesmo diapasão está o criador deste mesmo sistema, António Arnaut, que olha para o rumo actual da política de saúde com grande insatisfação, e vê nela uma “política de terra queimada: estamos perante um ultraliberalismo sem regras e à solta“, afirmou o mesmo.
- Que dizer da senhora Secretária de Estado Adjunta e da Saúde, que, com um pensamento absolutamente salazarista, definiu como únicos locais permitidos para dizer mal do governo, ou, das suas políticas, a casa, a esquina e o café!?
- O recuo sobre o referendo ao Tratado de Lisboa, uma das promessas eleitorais e de programa deste governo.
- O célebre caso do Professor Charrua. A anedota tornou-se agora motivo para perseguição laboral e política.
- A perseguição movida a alguns sectores da sociedade, como o caso evidente dos professores, onde pura e simplesmente se suprimiram direitos, apenas alcançados, porque um dia houve um 25 de Abril de 1974.
Muito mais ficará por dizer, porém, olhemos para o essencial. Para onde vai Portugal?
Repentinamente, parece que os desígnios da nação, não mais passam do que pela construção de um aeroporto, bem como de uma linha de alta velocidade. Como se disso dependesse o futuro de todos nós.
O deserto não é na margem sul, como afinal se viu. O deserto é das ideias e de políticas capazes de mudar Portugal.
VIVA O 25 DE ABRIL, VIVA A DEMOCRACIA, VIVA A LIBERDADE, VIVA PORTUGAL!
Grupo de membros da AM do PSD de Arcos de Valdevez